sexta-feira, 22 de junho de 2007

Odisseia do Pensar

Por Estradas e Ilhas dos Pensamentos

Odisseia do Pensar

Somos todos frutos, produtos do Pensamento
O Pensamento nos modulou, nos concebeu
A vida é uma Tróia conquistada a cada momento
Uma Odisseia que se encetou quando se nasceu

Por estradas dos Pensamentos; pelo mar dentro,
Vamos vivendo a vida e o destino que ela nos deu
Accionados por ânsias, alegrias, ao sabor do vento
Vamos por angras da aventura à deriva num Mar Egeu

Se penso existo, se existo penso, pensar é ser; é querer
O mundo é uma forma de pensar, de agir, sentir, sonhar
Quem pensa vive, quem vive pensa, há-de eternamente viver

Um dia seremos, se o Verbo assim o consentir; nos permitir,
Puros pensamentos, num mundo de eterno, total pensar
Seres de luz, havemos de ser, puro pensar e reflectir

Somos sim frutos, produtos do pensamento; mas será que somos porque pensamos ou será que pensamos porque somos?

Já Descartes entretinha o axioma, ‘’Je pense alors je suis; ‘’Eu penso portanto sou. ‘’ Alterando-se ou formulando-se o seu inverso ‘’je suis alors je pense;’’ eu sou portanto penso, ficamos relegados à premissa Shakespeariana ‘’To be or not to be, that is the question...’’ Somos ou não somos uma criação especial? Existe ou não existe um Deus? Haverá vida ou não depois da morte? Será esta vida apenas dois dias onde se come e se bebe; se fazem uma outras coisas que satisfazem o corpo e depois esse morre e apodrece e pronto? Porque só vivo uma vida? Porque nasço, vivo, morro? Porquê a dor, porquê o sofrimento e porque penso? Porquê ter nascido um ser pensante e não um animal qualquer ou uma pedra?

Imbuídos de raciocínio e inteligência, perguntamo-nos a nós mesmos de onde viemos, qual é a nossa função neste mundo, para onde iremos? Será que há um Deus, um ser supremo, um risco ou plano divino para esta existência? Num mundo concreto e previsível, buscamos o significado das coisas; o porquê de tudo ser como é; até nos atrevemos a formular mundos e realidades transcendentes à nossa, o Céu e o Inferno sendo dos mais conhecidos e propagados.

Criaturas humanas construímos paredes-meias com o divino ou o sobrenatural. Por isso nos são reveladas realidades que escapam à criatura comum do resto do planeta, a começar na nossa convicção desde o princípio, numa vida após a morte, na fé em poderes sobrenaturais, espíritos, deuses e deusas e mais tarde num Deus omnisciente, omnipresente, todo poderoso.

Movidos por essa ânsia de diálogo com o divino, procurámos oráculos, escreveu-se a Bíblia; rebuscámos os céus e a terra para respostas à nossa sede de conhecimento e revelação; entregamo-nos de corpo e alma às doutrinas que mais garantiam a tutela do altíssimo, interpretaram-se sonhos, invocaram-se as forças sobrenaturais. Seguimos filósofos e profetas; Abraão, Moisés, Confucius, Sócrates, Buda, Cristo, Maomé, Joseph Smith; Santos e Santas através dos tempos. Lutamos em guerras fratricidas para defendermos a “Fé.” Pela Fé galgaram-se os mares e dominaram-se terras e povos.

A própria a natureza, obedecendo a qualquer poder maior do que ela, desde o princípio, nos condicionou para uma realidade à parte, diferente da dos outros seres que nos rodeavam. No nosso processo de evolução, perdemos faculdades naturais que nos colocaram em desvantagem com o resto das outras criaturas, para sermos de seguida compensados com o poder do raciocínio e a habilidade de o usarmos para nos defendermos e nos avantajarmos. Dessa forma evitamos o destino de Tarzan, o homem natural, forte, rijo e selvagem.

Homo sapiens, todas as transformações favoreceram uma nova criatura, aquela que haveria de atingir a supremacia de entre todas as outras criaturas, isso quase por um desígnio intencional e inteligente. Assim, enquanto é comum entre os mamíferos a locução a quatro patas; a locução humana passou a dois membros e a uma postura erecta. As cordas vocais, os nossos lábios e língua adaptaram-se para a fala. Para trás ficou o ronco e o grunhido, comum entre outros primatas. O nosso sentido de audição perdeu a sua eficácia, mas passou a distinguir e a preferir a música, o canto e poesia. A visão perdeu em acuidade, mas ganhou em poder de ver as cores, de apreciar o belo e de criar ou recriar a realidade a seu dispor. Em geral, condicionados para servirmos um fim mais nobre, superamos todos os demais atributos naturais, os que fazem das feras produtos do seu meio ambiente e como tal lhes garantiram a sobrevivência. Em contrapartida, apesar de termos falhado na escala da evolução, reprovado nos atributos que nos garantiriam uma forma de viver selvagem. Ganhamos pela astúcia, pela inteligência, pela faculdade de transmitirmos os nossos pensamentos e unirmos para a defesa e o bem comum. Isto tornou-nos então tanto mais versáteis e adaptáveis. A nossa inteligência vestiu-nos, alimentou-nos, protegeu-nos, elevou-nos a uma categoria que superou todas as demais faculdades naturais. Devemos a nossa humanidade à inteligência, ao poder de raciocínio, à faculdade de pensar e transmitir esses pensamentos uns aos outros.

Quando os primeiros homens começaram a explorar a magia da pintura e retratar os animais que caçavam com o intuito de uma forma mágica controlarem o espírito desses mesmos animais; quando se começou a construir para uma realidade após a morte, se ergueram as antas, as pirâmides do Egipto e outros monumentos megalíticos; quando se começou a usar amuletos e se fizeram sacrifícios para se aliciarem os espíritos e os deuses; quando se imaginou e se criaram mitos sobre esses mesmos deuses e outros seres sobrenaturais, quando se formaram oráculos para se interpretar a vontade e o desígnio dos deuses; estava-se a rodar uma porta mágica, a abrir-se uma janela para um novo e fantástico mundo de possibilidades. Seres pensantes foi-nos dada uma herança ou privilégio dos deuses. Segundo os gregos foi Prometeu, o irmão de Atlas que nos criou dos limos e depois para nos proteger nos ofereceu o fogo e nos ensinou certas normas rudimentares de uma vida inteligente. A ele devemos a civilização humana. Por isso os restantes deuses o castigaram, acorrentando-o ao Monte Cáucaso e deixando que um abutre lhe comece as entranhas.

De qualquer forma, foram as nossas faculdades racionais que nos atiraram para a esfera de um mundo racional, lógico, pensante.

Desde o canto à oração, da poesia à elocução, da música à expressão mais eloquente da alma, a nossa Inteligência e sentido de religiosidade trouxeram-nos a limiares da consciência ou realidades metafísicas singulares, que no nosso imaginário só aos deuses era permitido.

Filhos dos deuses, passamos a usufruir de graças e das bênçãos desses. Surgiram entre nós os oráculos, os profetas, os sacerdotes e os médiuns; aqueles que se atreviam a interpretar, a aproximarem-se dos deuses ou espíritos; os que liam o futuro, perscrutavam a mente, exprimiam os desígnios e sentenças de realidades superiores.

Nesse processo, os Judeus tornaram-se o povo de Deus. Entre eles passou-se a cultivar a inteligência como disciplina e forma de viver. A sua cultura logo os dispôs como os sacerdotes, profetas, escribas; o que os fez os súbitos de um Deus rei, inteligente e todo poderoso. A Bíblia tornou-se um registo sagrado das diferentes etapas do relacionamento humano com o divino, o sacro e transcendente.

Poetas, profetas, reis, santos, anjos, Abraão, David, Salomão, Moisés, Buda, o próprio Messias, Cristo, Maomé, entre tantos outros, tornaram-se o fulcro chave num cenário apostado na aliança entre homem e divindade ou na conquista ao sobrenatural, aos estados de alma que transpunham os sentidos, nos colocavam face a face ou lado a lado com os deuses, com Deus. Aí fomos buscar dogmas morais, convenções e maneiras e atitudes de pensar que nos impulsionaram rumo ao divino, às realidades metafísicas, que definitivamente nos distinguem de qualquer outro ser vivo.

Com Cristo e o Cristianismo, atingiu-se o cúmulo dessa simbiose entre a divindade e o homem. Um Deus feito homem e um homem feito Deus, a humanidade encontra nesse Cristo a sua apoteose de alma. É quando o homem assume a paridade com o divino e o divino assume a nossa natureza; uma dialéctica que iria revolucionar o mundo e tocar a humanidade até ao âmago do seu ser.

O célebre grito de ‘‘Eureka! ‘‘ de Arquimedes, e o ‘’Eloi, Eloi, lema sabachthani?’’ são os gritos de toda a humanidade quando encontram ou quando buscam a ligação com essa outra realidade, saber, ou conhecimento de ordem universal.
É Goethe que exclama, “ Haja Luz!” É essa busca de claridade e de razão, essa vontade humana de união ou encontro com algo mais do que nós, mais do que a matéria bruta de que somos feitos. É essa ânsia e desejo humano que, segundo ele, nos distinguimos do resto das criaturas à nossa roda. É o pensamento, ou a faculdade de reflectirmos que nos empresta todas as faculdades que herdamos desde a religião, às descobertas científicas, às tecnologias e meios de comunicação e todos os demais sistemas que nos ligam e interligam e nos emprestam universalidade.

No momento em que uma ave voa, o partilhar a altura; o sentir-se livre, o obter uma visão do alto, fazem parte integrante dessa realidade e tornam-se parte da sua natureza.

Quem pensa, da mesma forma, ora; pois o pensamento possui uma dialéctica própria que nos eleva e nos enobrece. Quem pensa não pode ignorar a presença desse ser ou estado pensante a que convergimos e que contribuiu de sobre maneira para o nosso progresso e evolução como seres racionais.

Para um mundo de conflitos e confusão urge que pensemos mais, que meditemos, procuremos de novo entrar em sincronia com essas realidades metafísicas que desde o princípio nos distinguiram de todas as outra criaturas e nos prepararam um Caminho para que seguíssemos. Urge procurar essa “luz’’ e seguir em sua direcção. Urge continuar a avançar e não nos deixarmos cair em formas de pensar que nos releguem às faculdades naturais, as tais, que nos poderão fazer mais velozes, mais bravos e homens, mas certamente menos humanos.

Silvério Gabriel de Melo
Juncal, Praia da Vitoria